Início: 08/02/2027Término: 08/02/2028Aceite: 01/04/2026
Estre projeto prevê a realização de levantamento, pesquisa, organização e divulgação gratuita de acervo documental relativo à atuação da Associação Eunice Weaver do Paraná.
Objetivo geral: Preservar, organizar e difundir o acervo documental relacionado à atuação da Associação Eunice Weaver do Paraná, contribuindo para a valorização da memória social sobre a hanseníase no Brasil e para o fortalecimento do direito à memória, à verdade e à reparação histórica. Objetivos específicos: - Levantar, identificar e catalogar no mínimo 1.000 documentos relacionados à atuação da Associação Eunice Weaver do Paraná, ao longo da execução do projeto;- Realizar a higienização, organização e acondicionamento adequado de 100% do acervo levantado, seguindo normas técnicas de preservação;- Digitalizar ao menos 500 documentos do acervo, garantindo sua preservação e acesso ampliado;- Desenvolver e disponibilizar 1 plataforma digital ou repositório online, com acesso público e gratuito ao acervo digitalizado;- Inserir na plataforma digital 100% dos documentos digitalizados, acompanhados de metadados (data, origem, descrição);- Produzir, imprimir e distribuir gratuitamente 1.000 cartilhas sobre o acervo
Entender a memória coletiva de uma sociedade e sua participação na construção histórica dos discursos sobre determinados grupos sociais _ para si e para os outros _ implica reconhecer os conflitos, disputas e relações de poder que a constituem. A aparente coesão, estabilidade e continuidade que a caracterizam frequentemente operam por meio do silenciamento de experiências dissidentes, produzindo o apagamento das chamadas "memórias subterrâneas", associadas a sujeitos historicamente marginalizados. A presente proposta justifica-se, portanto, pela análise desse campo de disputas simbólicas que envolve as representações sociais da hanseníase no Brasil e as políticas públicas voltadas ao seu enfrentamento ao longo do século XX. Durante o processo de consolidação do Estado nacional e de institucionalização das ações sanitárias, especialmente entre as décadas de 1930 e 1980, estruturou-se um modelo de intervenção marcado por práticas de caráter autoritário, centradas no isolamento compulsório de pessoas diagnosticadas com a doença em colônias e hospitais-colônia. Nesse período, foram criados os preventórios, instituições destinadas ao acolhimento (igualmente compulsório) dos filhos considerados sadios desses pacientes, resultando na ruptura sistemática de vínculos familiares.Para além do estigma social associado à doença, amplamente documentado pela historiografia da saúde, tais políticas produziram múltiplas formas de violência institucional, cujos efeitos se prolongam no tempo. A separação forçada de famílias, a perda de identidade, a desinformação sobre trajetórias familiares e a negação de direitos configuram um legado ainda presente na vida de milhares de pessoas. Essas experiências podem ser compreendidas, à luz das reflexões de Michael Pollak, como memórias subterrâneas - narrativas que persistem à margem dos registros oficiais e das iniciativas estatais de rememoração. Embora o Estado brasileiro tenha reconhecido parcialmente essas violações, como no caso da instituição de pensão especial às pessoas submetidas ao isolamento compulsório, observa-se que grande parte dos sujeitos diretamente afetados permanece invisibilizada nos processos de reconhecimento, reparação e produção historiográfica.A precariedade, dispersão ou inexistência de registros históricos constitui, inclusive, um obstáculo concreto ao acesso a direitos, dificultando a comprovação de trajetórias institucionais e vínculos familiares. Nessa direção, o levantamento, a pesquisa e a organização de acervo documental relativo à atuação da Associação Eunice Weaver do Paraná mostram-se fundamentais não apenas para a preservação da memória institucional, mas também para a reconstrução de histórias de vida, contribuindo para o fortalecimento de políticas de memória, verdade e reparação. Ao trazer à tona essas experiências, a iniciativa contribui para tensionar narrativas oficiais, ampliando e complexificando a compreensão da história social da saúde no Brasil, além de evidenciar o papel das instituições assistenciais na gestão da infância e da doença no âmbito das políticas sanitárias do século XX.Por fim, a realização desta proposta por meio dos mecanismos de fomento previstos na Lei Rouanet justifica-se por sua contribuição direta à preservação e difusão do patrimônio cultural brasileiro, entendido em suas dimensões material e imaterial. Ao promover o levantamento, a organização e a disponibilização de acervos documentais relacionados à história da hanseníase e às instituições assistenciais a ela vinculadas, a iniciativa atua na salvaguarda de experiências historicamente marginalizadas, ampliando o acesso público a essas narrativas. Trata-se, portanto, de uma ação que fortalece a diversidade cultural e promove o direito à memória, em consonância com os princípios de democratização do acesso e valorização da identidade cultural brasileira.